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Lesões por Mordedura – animal e humana.

14 mai

Mordeduras Humanas e Animais

           Podem gerar infecções como celulite, abscesso e osteoartrite. Em geral são polimicrobianas, por bactérias anaeróbias, aeróbias e facultativas.

           Fatores de risco para infecções pós-mordida:

-          intervalo de tempo entre o acidente e o atendimento maior que 8h;

-          região acometida muito vascularizada(mãos e pés);

-          tipo de lesão(puntiformes, profundas, com esmagamento);

-          presença de contaminantes grosseiros(fezes, saliva, sujidades);

-          doença preexistente(desnutrição, imunodeficiência, diabetes etc.);

-          natureza do agressor: risco pós-mordida por cão: 4 a 10%; gato: 50 a 80%; humana: 15 a 30%.

 Agentes bacterianos mais comuns nas lesões infectadas:

Cães: Pasteurella multocida, Staphylococcus aureus, estreptococos e anaeróbios: Peptostreptococcus spp, Peptococcus spp., Bacteroides spp.(não-fragilis) e Fusobacterium spp.  em diversas associações.

 Gatos: Pasteurella multocida, Bacteroides spp.(não-fragilis), Prevotella spp., Fusobacterium spp.  e ocasionalmente estreptococos e estafilococos.

 Humanas: Bacteroides spp.(não-fragilis), Prevotella spp., Fusobacterium nucleatum, Porphyromonas melaninogenica, Peptostreptococcus spp., Veillonella parvula, estreptococos a e g-hemolíticos, Staphylococcus aureus, Eikenella corrodens e Haemophilus spp.

             Cuidados com a ferida:

            Toda mordida humana ou animal é a princípio contaminada.

Abordagem Tempo do acidente

                         <8h                                                                                         >8h

Limpeza local Retirar sujidades, irrigar com grande volume de solução salina, em alta pressão. Idem
Cultura da lesão Não, somente com sinais de infecção. Sim, exceto em lesões>24h e sem sinais de infecção.
Desbridamento Se houver tecido necrótico. Idem
Sutura da lesão Controverso: avaliar em lesões de cabeça e face, não em lesões puntiformes, nas mãos ou infectadas. Não
Avaliar risco de tétano Sim Sim
Avaliar risco de raiva Sim Sim
Avaliar risco de hepatite B (mordidas humanas) Sim Sim
Avaliar risco de HIV (mordidas humanas) Sim Sim

             Indicações de antibioticoprofilaxia:

-          mordida humana ou de gato, suturada ou não;

-          mordida de cão sem cuidados após 8 horas do acidente;

-          mordida nas mãos, qualquer agressor;

-          ferimento profundo, difícil acesso para irrigação ou desbridamento;

-          vítima com doenças de risco preexistentes.

 Antibioticoprofilaxia:

 Primeira Escolha: associação de antibiótico betalactâmico com inibidor da beta-lactamase: Amoxicilina/clavulanato, via oral, na dose de 50mg/kg/dia por 5 a 7 dias. A associação de penicilina com eritromicina é alternativa adequada.

 Esquemas monoterápicos alternativos (vulneráveis): penicilina V ou G cristalina, amoxicilina, ampicilina, cefalexina, cefaclor, ceftriaxona, eritromicina, cloranfenicol ou tetraciclina (maiores de 8 anos).

 Alérgicos à penicilina: não há monoterapia satisfatória: cloranfenicol, eritromicina ou tetraciclina, eventualmente associados a aminoglicosídio.

 O seguimento clínico deve ser próximo para a detecção precoce de complicações. Sinais iniciais de infecções secundárias geralmente são detectados em 24 a 48h.

 Doenças infecciosas transmitidas por mordedura:

Doença Agente etiológico Animal 
Arranhadura do gato
Bartonella henselae
Gato
Tularemia Francisella tularensis Coelho e gato
Mordedura do rato Streptobacillus moniliformis, Spirillum minus Rato
Peste Yersinia pestis Gato e rato
Esporotricose Sporothrix schenckii Gato
Blastomicose Blastomyces dermatitidis Cão e gato
Brucelose Brucella canis Cão
Encefalopatia por Herpesvirus Herpesvirus simiae Primatas
Leptospirose Leptospira spp. Rato e gato
Hepatites B e C Vírus da hepatite B e C Homem
Herpes simples 1 e 2
Herpes simplex virus
Homem
S.I.D.A. HIV Homem
Raiva Vírus da raiva Cão, gato, morcego e outros
Sífilis
Treponema pallidum
homem
Tétano Clostridium tetani Homem e outros animais

 

Profilaxia da Raiva Humana

 Somente animais mamíferos são suscetíveis ao vírus da raiva, portanto, capazes de transmitir a doença.

A doença é endêmica em todo o Brasil, embora com incidência variável. Em humanos ocorreram 3 casos em 2008 e 2 casos em 2009, quase todos no Nordeste do país. (Fonte: COVEV/CGDT/DEVEP/SVS/MS)

 Cães e Gatos: acidentes com estes animais domésticos devem ser avaliados pelos critérios: estado clínico do animal e circunstâncias do acidente, se domiciliados ou não, e possibilidade de observação do animal.

 Outros Animais:

Animais de Baixo Risco: ratos, cobaias, hamsters, coelhos e outros roedores urbanos. Geralmente não requerem profilaxia da raiva.

 Animais de Médio Risco: bovídeos, equídeos, caprinos, suínos, bovinos e macacos criados em cativeiro; Esses acidentes devem ser avaliados em conjunto com veterinários sobre a necessidade da profilaxia.

 Animais de Alto Risco: morcegos e outros mamíferos silvestres.

 Classificação do acidente:

 a)      Contato indireto:

-          manipulação de utensílios contaminados;

-          lambedura de pele íntegra.

 b)      Leve:

-          arranhadura e mordedura superficial em tronco e membros(exceto pés ou mãos).

 c)      Grave:

-          mordeduras, arranhaduras ou lambeduras de feridas  na cabeça, pescoço, pés ou mãos;

-          mordeduras ou arranhaduras múltiplas, puntiformes e/ou profundas;

-          lambeduras de mucosas;

-          acidentes com morcegos.

 Abordagem do acidente

 A vacina disponível contra raiva no Brasil é a obtida em cultura de células. Existem as vacinas celulares produzidas em culturas de células diplóides humanas (VCDH) ou de células VERO (VCV).

Condições do animal agressor Cão ou gato sem suspeita de raiva no momento da agressão Cão ou gato clinicamente suspeito de raiva no momento da agressão Cão ou gato raivoso, desaparecido ou morto; animais silvestres (incluindo os domiciliados), morcegos e outros.
Tipo de agressão
Contato indireto Lavar com água e sabão.Não tratar. Lavar com água e sabão.Não tratar Lavar com água e sabão.Não tratar
Acidentes leves Lavar com água e sabão.Observar o animal por 10 dias após o acidente: se permanecer sadio no período, encerrar o caso;Se o animal morrer, desaparecer ou se tornar raivoso, dar 5 doses da vacina. Lavar com água e sabão.Iniciar tratamento com 2 doses, uma no dia 0 e outra no dia 3.Observar o animal por 10 dias após o acidente: se a suspeita de raiva for descartada após o período, suspender o tratamento e encerrar o caso;

Se o animal morrer, desaparecer ou se tornar raivoso, completar até 5 doses da vacina. Uma dose entre o dia 7 e 10 e outras nos dias 14 e 28.

Lavar com água e sabão.Iniciar imediatamente o tratamento com as 5 doses da vacina.
Acidentes graves Lavar com água e sabão.Iniciar tratamento com 2 doses, uma no dia 0 e outra no dia 3.Observar o animal por 10 dias após o acidente: se permanecer sadio, suspender o tratamento e encerrar o caso;

Se o animal morrer, desaparecer ou se tornar raivoso, completar até 5 doses da vacina. Uma dose entre o dia 7 e 10 e outras nos dias 14 e 28.

Lavar com água e sabão.Iniciar tratamento com soro e 5 doses, da vacina.Observar o animal por 10 dias após o acidente: se a suspeita de raiva for descartada após o período, suspender o tratamento e encerrar o caso. Lavar com água e sabão.Iniciar imediatamente o tratamento com o soro e as 5 doses da vacina.

             Se houver disponibilidade local pode-se encaminhar o cérebro do animal morto, avaliando o sacrifício do animal raivoso ou suspeito, para diagnóstico laboratorial de raiva. Sendo negativo, habitualmente em torno de 48h, pode-se interromper o tratamento em curso.

 Profilaxia pós-exposição

Cinco doses de 1,0 ml da VCDH ou 0,5 ml da VCV, por via intramuscular, nos dias 0, 3, 7, 14 e 28 após o acidente. Deve ser aplicada na região deltóide, em lactentes, e no vasto lateral da coxa nos demais. A região glútea não deve ser utilizada.

Estas vacinas induzem resposta imune ativa, com a produção de anticorpos neutralizantes. A resposta requer sete a dez dias para desenvolver-se e geralmente persiste durante dois anos.

Em acidentes graves está indicado o soro ou a imunoglobulina humana anti-rábica o mais precocemente possível.

O soro anti-rábico e as imunoglobulinas humanas anti-rábicas conferem imunidade passiva rápida, que persiste durante período curto de tempo, com meia-vida dos anticorpos de aproximadamente 21 dias.

 Reexposição

             Esquemas de reexposição, conforme o esquema vacinal anterior

Tipo de esquema anterior Vacina Esquema na reexposiçãoVacina de cultivo celular
Completo Fuenzalida & Palacios modificada Até 90 dias: Não tratarApós 90 dias: 2 doses, uma no dia 0 e outra no dia 3.
Cultivo celular Até 90 dias: Não tratarApós 90 dias: 2 doses, uma no dia 0 e outra no dia 3.
Incompleto Fuenzalida & Palacios modificada Até 90 dias: completar o número de doses.Após 90 dias: ver esquema de pós-exposição.
Cultivo celular Até 90 dias: completar o número de doses.Após 90 dias: ver esquema de pós-exposição.

 As doses são: 1,0ml da VCDH ou 0,5ml da VCV, por via intramuscular.

Nestes casos, quando possível, é recomendável a pesquisa de anticorpos contra a raiva.

Na reexposição é desnecessário o uso simultâneo de soro ou de imunoglobulina humana anti-rábica.

 Considerações sobre o tratamento:

            Cuidados com os ferimentos: a lavagem deve ser abundante, com água corrente, sabão ou outros detergentes, devendo eliminar todas as sujidades. A sutura deve ser evitada, e se indicada, deve ser antecedida por infiltração local do soro anti-rábico, 1 hora antes.

            A profilaxia do tétano deve ser providenciada segundo a norma vigente.

            As vacinas produzidas em culturas de células apresentam menor reatogenicidade e apesar do custo mais elevado, vêm substituindo a vacina Fuenzalida-Palacios, preparada a partir da inoculação do vírus selvagem em cérebro de camundongos recém-nascidos, havendo o risco de induzir reações desmielinizantes.

O soro anti-rábico é infiltrado no local da lesão, e se a quantidade pela dose for insuficiente para infiltrar toda a lesão, dilui-se em soro fisiológico. Somente na impossibilidade anatômica de se infiltrar toda a dose, a menor parte possível deve ser aplicada na região glútea. Dose: 40UI/Kg.

Atualmente há a imunoglobulina humana anti-rábica, devendo ser aplicada da mesma forma que o soro, na dose de 20UI/Kg.

 Referências Bibliográficas:

  1. Costa, A., Neto, V.A.: Raiva Humana. In:Tonelli, E., Freire, L.M.S. (eds): Doenças Infecciosas na Infância e Adolescência. Vol II. 2ª ed. ___, 77:1166-1193, ___
  2. Mantese, O.C., Arantes A..: Infecções por Bactérias Anaeróbias. In:Tonelli, E., Freire, L.M.S. (eds): Doenças Infecciosas na Infância e Adolescência. Vol I. 2ª ed. ___, 31:458-504, ___
  3. Martins, I.S.; Gomes, A.P.; Mascarenhas, L.A.; Pereira, N.G.: Mordedura animal. In: Igreja, R.P. e Gomes, A.P: Medicina Tropical, abordagem atual das Doenças Infecto-parasitárias. Vol II, 109: 991-995, 1999.
  4. Committee on Infectious Diseases, American Academy of Pediatrics: Bite Wounds: Red Book 2000. 25th ed., section 2, pp 155-159, 2000.
  5. FUNASA/Ministério da Saúde: Vacinas contra raiva obtidas por culturas de células; Manual dos Centros de Referência dos Centros de Imunobiológicos Especiais, 13:73-77, 2001.
 
62 Comentários

Publicado em Artigos

 

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  1. rodrigo

    10 de dezembro de 2014 às 12:22

    Olá Alexandre. Recomendo que sim, para avaliar seu risco não só de raiva como de outras infecções.

     
  2. alexandre

    10 de dezembro de 2014 às 07:20

    Bom dia,
    Fui mordido a uns 2 dias, o cachorro e de casa e manso, mordeu pq eu estava de moto e ele não me reconheceu. A mordida foi abaixo da panturrilha bem no tendão, hj acordei com dor ( latejando), eu apenas lavei bem e coloquei gelo na hora q fui mordido, devo procurar um médico?

     
  3. rodrigo

    16 de novembro de 2014 às 11:56

    Oi Gisele. É difícil avaliar sem te examinar. Tire as dúvidas com seu médico. A avaliação de um ortopedista pode ser útil neste caso.

     
  4. Gisele

    15 de novembro de 2014 às 10:37

    Fui mordida por um gato a 2 meses, mas procurei atendimento médico após o 5° dia quando a infecção já havia chegado ao antebraço, fui tratada com vários antibióticos a infecção regrediu mas o médico me diagnósticou com tenossinovite devido a perda de mobilidade e edema que ficou, perdi o movimento dos dedos e estou com medo que seja definitivo, alguém já viu algum caso parecido?

     
  5. rodrigo

    10 de novembro de 2014 às 12:02

    Emanuel, o HIV é uma infecção em seres humanos e não há transmissão pelo ou para o animal.

     
  6. Emanuel

    28 de outubro de 2014 às 21:55

    É possível um cachorro morder uma pessoa com o vírus HIV e ser infectada pelo vírus?

     
  7. rodrigo

    30 de agosto de 2014 às 20:01

    Não se preocupe. A raiva ocorre rapidamente e é quase sempre fatal, tanto para o animal como para ser humano.

     
  8. Flavia

    25 de agosto de 2014 às 02:55

    Fui arranhada por um gato na mão uma arranhadura bem pequena há quase um ano na época nem me preocupei pois nem me passava pela cabeça que poderia ser perigoso, mas andei lendo uns arquivos sobre raiva pois adquiri um cachorro, será que mesmo após um ano posso ter contraído o vírus da raiva.

     
  9. rodrigo

    23 de julho de 2014 às 05:33

    Rosi. Você deve ser avaliada por um médico. Abraço

     
  10. rodrigo

    23 de julho de 2014 às 05:32

    Ana, infelizmente não é possível avaliar se uma consulta presencial. Procure uma consulta médica para seu caso. Abraço

     
  11. Ana Lobato

    14 de julho de 2014 às 09:16

    Bom dia! Fui mordida na barriga da perna por um cão de grande porte em Novembro de 2013. na altura fiz toda a medicação devida a nível de antibióticos. A mordedura provocou dois buracos em cima dos gémeos, uma delas profunda. Já fiz uma ecografia e uma ressonância magnética e acusa celulite crónica e edema muscular. o que acontece é que a nível médico ninguém sabe o que fazer mais. Eu continuo a coxear, a não conseguir dobrar a perna sequer a 45º . será que me pode sugerir alguma medida resolutiva. pois apesar de eu saber que não vou voltar a ter a perna a funcionar a 100%, assim não posso continuar. Obrigada desde já pela atenção prestada.

     
  12. rodrigo

    1 de abril de 2014 às 12:45

    Elias, se houve mordida sempre deve ser examinado, principalmente se tiver sintomas.